Projeto de cineastas negras busca financiamento para filmar na África

Documentário sobre mulheres negras lança campanha de financiamento coletivo Filmagens serão realizadas em agosto de 2018 em Maputo, Moçambique, com equipe exclusiva de mulheres do audiovisual negro

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No documentário Hixikanwe – Estamos Juntas, uma equipe de mulheres negras investiga os sentidos de ser mulher negra. Gestado há quatro anos, o projeto propõe o reencontro da jornalista pernambucana Débora Britto, idealizadora do projeto, com as mulheres com quem conviveu e a cidade de Maputo, capital de Moçambique, onde morou, em 2014, por ocasião de intercâmbio universitário. Parte da captação das imagens foi realizada na época do intercâmbio – quando ainda não se vislumbrava a possibilidade do projeto ganhar uma dimensão maior. Em agosto deste ano, o projeto retorna a Moçambique para as novas etapas de entrevistas e filmagens.

De acordo com a diretora, o processo de realização do filme é duplamente desafiador. Primeiro, por ser realizado exclusivamente por uma equipe de profissionais negras de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, além de uma moçambicana na produção. Uma das técnicas da equipe também é filha de moçambicanos. Com isso, o filme ganha em diversidade de olhares e essa decisão não foi à toa: a ideia é valorizar a produção do audiovisual negro. “As oportunidades de trabalho na área são poucas, especialmente para as mulheres. Então, não faz sentido falar sobre mulheres negras e não gerar condições de trabalho para elas. O processo todo precisa ser colaborativo”, explica. Hixikanwe, aliás, significa “estamos juntos”, em Xi-Changana, língua materna da Região Sul de Moçambique.

Campanha – O segundo desafio, segundo a idealizadora, é do campo da captação de recursos. “Fazer audiovisual no Brasil ainda é muito caro, mesmo com os incentivos”, afirma. O projeto foi aprovado no Edital do Funcultura Audiovisual deste ano, mas ainda precisa de mais financiamento para ser viabilizado. Por isso, foi lançada nesta semana uma campanha na plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria visando a contribuição de pessoas físicas e jurídicas que acreditem no potencial do projeto. A campanha fica no ar durante um mês e visa captar R$ 25 mil reais que complementarão despesas de transporte, alimentação, hospedagem e pagamento de pessoal.

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A meta é ousada, ainda mais porque, pela natureza da plataforma, os doadores têm a devolutiva integral de suas contribuições se 100% da meta não for atingida (“Tudo ou Nada”). Mas a equipe está confiante. “Atravessar o continente não é uma tarefa simples. Mas ser mulher negra, sobreviver, resistir e produzir nossas próprias narrativas também nunca foi fácil. E a gente tá aqui fazendo, né? Por isso a gente acredita que vai ser possível, sim”, afirma Débora. O site do Benfeitoria é especializado em projetos de cunho social e os colaboradores podem escolher qual faixa de valores podem apoiar e que recompensas podem obter em troca – no caso dessa campanha específica, os bônus podem ser desde agradecimentos nos créditos do filme até artes exclusivas da artista visual pernambucana Magda Martins, artesanato feito à mão desde Moçambique (como capulanas e batiks) ou etapa formativa em audiovisual para grupos e organizações.

Atlântico de lá e de cá – Judite, Júlia, Amélia, Madalena, Graça, Ramia. Essas são algumas das mulheres que lá, do outro lado do Atlântico, começaram a costurar as primeiras linhas dessa narrativa. E foi a partir do olhar dessas mulheres, ligadas a um projeto social da ONG homônima, Hixikanwe, que a diretora pela primeira vez começou a se reconhecer como mulher negra. Assim, o filme tem como ponto de partida a relação de troca e também de escuta. Esse é um processo vivenciado por parte da equipe do filme em experiências anteriores de descoberta de identidades e revisitação de suas próprias histórias de vida, como o premiado documentário Travessia, de Safira Moreira, que assina a direção de fotografia de Hixikanwe. Ali, a autora reconstrói a sua linhagem familiar por meio das fotografias – ou da ausência delas.

Essa é uma busca, aliás, presente em muitas das narrativas da recente produção audiovisual negra no Brasil, como por exemplo, o também premiado Deus, de Vinícius Silva, do mesmo período. Mais do que uma tendência, tal cenário pode apontar pistas para uma necessidade de (re)encontros desses realizadores com as histórias de si e dos outros. No caso de Hixikanwe, a pergunta que move é: o que é ser mulher em África e na diáspora? O que as distancia e o que as aproxima? As respostas, certamente, estão do lado de lá. E de cá. Nas subjetividades de cada uma dessas mulheres.

 

Texto/Release da assessoria de imprensa

 

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

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