O Hype está fora do Hype: Influenciadores reforçam preconceitos ao definir o que tendência na Moda

Texto: Eduarda Santos

No início de Fevereiro, as influenciadoras Malu Camargo e Dani Soomin fizeram um vídeo para o Tik Tok com o tema “Coisas que deveriam ficar em 2023” se referindo às tendências de moda de 2023 que elas achavam cafona e que as pessoas deveriam parar de usar. 

O mais curioso é a forma como elas tratam as tendências, e explicitam que, a partir do momento que a peça não está mais num pequeno grupo de pessoas, ela passa a ser desinteressante e cafona. Em suas falas, as influenciadoras usam a expressão “tá fora do hype” como uma das palavras para referenciar que a peça já caiu em desuso. 

Mas o que é o hype? 

O “hype”, dentro do Marketing Digital, é a estratégia utilizada para enfatizar um produto ou ideia e torná-lo mais famoso. Na moda, é um conceito bastante utilizado para dizer o que está em alta nas tendências de moda e estilo dentro da sociedade, e isso afeta diretamente a grande massa. Para entender melhor o que significam tendências de moda, é importante entender como elas surgem e funcionam. 

Basicamente, as tendências seguem uma movimentação inicial de um gotejamento: Grandes estilistas criam peças, combinam cores, texturas e estampas. A partir disso, ícones fashions e celebridades começam a utilizar essas roupas ganhando atenção na mídia. Quando a classe média alta começa a se interessar pela peça, ela começa a se difundir entre as comunidades, chegando à classe baixa. Na verdade, esse momento está relacionado com o desinteresse da classe dominante que busca “exclusividade”. Chamamos isso de “Trickle Down”.

 

(Reprodução/Isabella Mirindiba)

Outro movimento bastante comum de acontecer, principalmente no Brasil, é o “Bubble Up”, que é quando uma tendência surge nas classes mais baixas e começa a ser utilizada por uma grande quantidade de pessoas. Ao chegar na Classe Média acaba chamando mais atenção da mídia, o que faz com que as lojas de departamento passem a produzir peças para pegar carona na onda. A partir daí, as classes mais altas passam a se interessar a aderir o “hype” e aderem a tendência de uma bolha que não lhes pertence. A partir do momento que o mercado de luxo percebe o interesse do seu público, começa também a produzir e lançar nas passarelas peças que atendem ao estilo. É isso que define o conceito de moda periférica.

Em um trecho do vídeo, Malu e Dani comentam que “Unhas compridas e cabelo longo são cafonas”, que são características muito fortes da moda periférica, e que tem uma cultura enraizada no Brasil. Em Pernambuco, são os famosos “galerosos” — que usam ‘bermudas tactel’, camisa de marcas como Cyclone e Seaway, bonés e a famosa “lupa” que é bastante conhecida pelo restante do país como “óculos juliet” — e as “ratas”— com top-croppeds, minissaias e o famoso chinelo da marca Kenner — que comandam o estilo periférico do estado. Ser da periferia não obrigatoriamente prevê que a pessoa será assim, existem diversos fatores para influenciar essas pessoas como por exemplo a cultura do Brega Funk. 

Falando da moda periférica feminina, é bastante comum que essas mulheres façam sobrancelha de henna, extensão de cílios, unhas de gel e bronzeamento de fita, que são

características muito fortes da cultura brasileira e reforçam a fama mundial do país com procedimentos estéticos. O vídeo das influenciadoras demonstra uma contradição que beira à hipocrisia quando olhamos para o ano anterior e observamos que essas mesmas influenciadoras e outras aderiram a tendência do “Brazilcore”. 

(Reprodução/Isabella Mirindiba)

O Brazilcore foi uma tendência de moda que aconteceu no fim de 2022 com a Copa do Mundo, e chegou até 2023. O estilo era caracterizado principalmente por mulheres brancas — em sua maioria estrangeiras— que usavam roupas com o estilo da moda periférica. A peça mais utilizada da época foi a camisa da Seleção Brasileira, que, por ironia, alguns meses antes tinha sido alvo de críticas das ‘fashionistas’ por ser uma peça “cafona”.

O grande problema é que somente quando o exterior olhou para o “Brazil” foi que o “Brasil” começou a se valorizar. Virou moda ser brasileiro. Se você tivesse unhas longas, cabelos compridos, uma mini saia e um cropped verde e amarelo, você seria aclamado pelos seguidores da moda. 

Isso mostra que para influenciadoras como Malu e Dani, a tendência só é “cool” e interessante quando são usadas pelas suas bolhas, quando as gringas estão ditando ou quando a classe alta, que tem maior poder aquisitivo, é a única consumindo a peça ou estilo do momento. Malu, Dani e outras influenciadoras nunca haviam apoiado ou referenciado a moda das periferias antes das gringas o fazerem, muito pelo contrário, é comum encontrar vídeos delas expondo suas opiniões preconceituosas sobre uma moda que não lhes pertence.

Créditos: Instagram, Malu Camargo

A “imposição” de regras com vídeos de mulheres brancas e ricas falando o que é brega ou o que deveria parar de ser usado alcança milhões de visualizações no TiKtoK só reforça uma grande exclusão social e, claro, o preconceito com pessoas da classe baixa, em sua maioria preta.

Conversando com Lillian Bezerra, consultora de estilo pessoal, modelo e mulher negra, ela disse: “Hype não é moda. É status social”. E é exatamente sobre isso que precisamos refletir da próxima vez que deixarmos de vestir o “hype passado”. Como Lillian diz: Precisamos aproveitar as tendências para consumir aquilo que pessoalmente nos interessa, e utilizar do fácil acesso em lojas de departamento ou brechós, para compor o guarda roupa com peças que compõem seu estilo. 

Moda é comunicação visual não-verbal, e, quando existem influenciadoras e pessoas de classe média e alta que usam do hype e trocam de estilo a cada 6 meses, isso diz muito mais sobre a personalidade e até visão de mundo delas, que acabam propagando uma ideologia excludente e racista desconsiderando identidades e acessos.

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

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