ENTREVISTA: “Fui eu o tempo todo”, diz Bell Puã sobre EP “Jogo de Cintura”

Texto: Lenne Ferreira | Imagens: UHGO

 

Dona de si e do seu tempo, a pernambucana Bell Puã colocou no mundo o seu primeiro EP, Jogo de Cintura, um projeto autoral que reúne seis faixas, que incluem um interlúdio poético. O álbum, que contou com incentivo do Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco, tem sua estética sonora costurada pelo Drill, Love Song, Coco, e Embolada. Por meio da obra, Bell toca em complexidades da sociedade contemporânea como a hiperprodutividade e opressões de gênero no mercado da música sem deixar de lado a leveza e o prazer de viver um dia de folga. 

Ao longo de quatro anos, a artista, que ficou conhecida na cena nacional por suas performances icônicas em encontros de Slam de poesia falada, bebeu das próprias vivências pessoais e referências para construir uma narrativa que se aproxima de suas origens familiares, sua militância enquanto mulher preta, mãe, artista nordestina e uma otimista incorrigível.  

Com produção musical de Marley no Beat e Tom BC, “Jogo de Cintura” coloca nos ouvidos do público canções para ouvir junto com o bonde, grudadinha no love, em um dia de folga na praia ou “naqueles piques”  da correria diária. Tem música que também oferece afago nos momentos em que nem superficialidade algorítmica dá conta de distrair a carência afetiva e o desamparo numa sociedade caos extremos. 

Na entrevista a seguir, Bell Puã contou a editora Lenne Ferreira um pouco sobre o processo de produção, realizado em parceria com sua produtora artística Bola1Prod, comenta sobre músicas do EP e avisa: “Fui eu o tempo todo apesar de estar fazendo o jogo de cintura do game (Rap) e do mercado”. Confira!

AFOITAS: Qual o significado do EP Jogo de Cintura para você?

BELL: O significado desse álbum pra mim é dizer que as coisas vão ser do meu jeito mesmo, do meu jeito mulher, do meu jeito intuitivo, negra carregando minha ancestralidade e a presença, as referências presentes, né? Aqui. Fisicamente também. É um significado de não me limitar mesmo ao que a cena diz, ao que a cena faz especialmente no centro, no Sudeste, é um jeito mesmo de entrar no jogo, jogar a cintura para poder se sair bem no mercado que quer tanto aniquilar nossos sonhos, os pretos, pretas, indígenas. 

De fato, é um jogo de cintura estar bem nesse mundo de redes sociais, onde dependemos tanto desse mecanismo que é só a vida superficial, a vida que não é a real, mas sim o que você escolheu apresentar de você mesma. E a gente esquece isso, a gente vê gente se dando bem, tendo sucesso e vai achando que a pessoa é só aquilo, que quando você não tem sucesso, a culpa é sua.

AFOITAS: O disco conta com uma faixa de interlúdio que é uma récita e cita diversas referências. O que você queria que ficasse mais evidente?   

BELL: Eu quis tentar falar de referências diversas, né? De pessoas sobretudo negras. Brasileiras que me inspiram de formas diferentes, de lugares incomuns como falo de Leila, Racionais, Maxwell Alexandre que é um pintor carioca. Inhotim é tipo maior ateliê de exposição, riquíssimo e ele tem muita moral.

Daí eu falo isso, artista negro ataca em Inhotim. E aí também tem referência ao Brega Funk obviamente, né? Não tem como crescer em Recife e não ser totalmente tomada pelo Brega. Eu acho que a gente também precisa sempre colocar o Bregafunk no lugar de reverência, intelectualidade também, sabe? Com isso é dizer inteligência, inteligência emocional também pra viver. Arte como escape.

AFOITAS: Como suas raízes familiares atravessam a tua arte?

BELL: Eu sempre fui criada no litoral. Sou do Recife mas o meu pai que também foi criado no Recife, em Beberibe, mas ele a família dele é do sertão da Paraíba, sertão do Cariri, família bem indígena. Com certeza, esse lado de exaltar Pernambuco e interior de Pernambuco tem muito a ver com meu pai porque ele sempre foi aquela pessoa que chora ouvindo Baião. Ele se comove e se emociona muito com ser pernambucano. Sempre foi assim. Aprendi muito isso. 

Quando ganhei o Slam lá em São Paulo e ia pra Paris, meu pai disse que para ‘ir pro exterior, primeiro tem que ir pro interior’, e a gente viajou para Petrolina. Minha mãe carioca, né? Minha mãe hoje tem um carinho muito grande, mas já teve suas xenofobias pela mente comum, né? 

AFOITAS: Você tem sua música preferida do EP?

BELL: Todas são preferidas.. Eu gosto muito de “Cigana”, que é um Drill, e “Passa nada”, que tem um lugar muito carinhoso pra mim porque eu acho que é um mantra muito real nesse lugar de tudo acelerado e exigirem que você esteja sempre mostrando que está bem, está produzindo, está com os numerinhos pra todo mundo, né? Curtindo o que você está fazendo. Aí lancei essa brincadeira com o Passinho porque de passinho em passinho a gente chegou onde ninguém diria que a gente ia chegar, né?

AFOITAS: Jéssica Caitano faz participação especial na faixa Estado das Maravilhas. Fala um pouco dessa parceria. 

BELL: Pernambuco é a pura maravilhosidade cultural. Nesse feat, eu pensei em Jéssica Caitano por causa da sonoridade do trabalho dela, que traz para junto do Rap elementos como Coco, que é o que tem bastante nesse Drill. Então, eu achei que fazia muito sentido, além da admiração também, carinho por ela, que admiro como artista, como pessoa e eu achei que teve tudo a ver com o que eu imaginei pra esse ela ter esse flow metralhado, né? Eu acho que Jéssica Caetano ela representa algo muito inédito a nível do Brasil. 

AFOITAS: “Dia de Folga” é um Love Song que estimula um estado de leveza. Essa é outra mensagem que você queria passar por meio do EP?

BELL: Dia de folga é uma música que eu acho importante pra mostrar que a gente ama, ama bem, ama com vontade, ama em momentos de correria, né? Ama com inteligência emocional e essa música fala de um dia de folga, eu imaginei mesmo um dia de folga né? Que é algo tão caro pra gente que trabalha, cuida da casa, cuida dos filhos. 

Dia de folga é uma coisa muito cara, preciosa e ela não tem a ver com dinheiro necessariamente. Você saber curtir seu tempo livre com a pessoa amada, você pode ser milionário e não estar feliz, bem bem em um momento desse. Essa música fala de uma sintonia, uma conexão com a pessoa que está vivendo aquele momento de descanso, eu acho que não tem coisa mais gostosa do que descansar com a pessoa amada.

AFOITAS: O mercado da música não tem sido muito convidativo para artistas do Nordeste, principalmente pra quem é mulher e faz Rap. Como você se sente nesse lugar?

BELL: É bem desestimulante a cena no geral. Eu acho que eu me agarro muito às minhas referências e me seguro muito no sentido que elas me dão, sabe? Pra poder fazer o que eu faço, porque senão realmente a gente se desacredita e se desacreditando a gente não consegue compor bem com confiança. É um malabarismo danado.

Tem vários dias que você acha que tudo que você faz é ruim. Eu passei muitos meses fazendo música e achando tudo ruim. Achando que tudo tinha que melhorar, tudo tava bosta. Até que ficasse do jeito que eu fizesse: ‘Caramba! Eu ouviria essa música no lugar de afago no lugar de mantra’. Então eu fiquei satisfeita, mas no geral é tanta coisa, a gente é tão incumbido a desacreditar que demora a fluir.

AFOITAS: Marley no Beat e Tom BC assinam a produção musical do EP. Como foi a construção dessa parceria?

BELL: Acho que no processo com Tom BC e Marley a gente conseguiu dialogar bastante e chegar num lugar que foi satisfatório pra mim. Me senti autêntica, trazendo as minhas opiniões, minhas questões, mas, é óbvio, não sem alguns momentos relutar. Com as mulheres, a gente tá acostumado com outra coisa, a gente tá acostumada a se ouvir muito, a uma fala a outra fala “ai que lindo, amiga”. Mas quando você tá com com os caras você fala uma coisa a primeira reação é desacreditar dessa sugestão. A forma como você lida com isso também vai influenciar em como os caras vão aceitar mais as suas sugestões. Minha produção afiadíssima trazendo as questões para eles também e eles acataram, conversavam. Eu acho que a gente teve um processo bem saudável.

AFOITAS: Jogo de cintura para que?

BELL: Para mim, jogar com a cintura é jogar com o capitalismo, jogar com a xenofobia, com o racismo, o machismo, né? São tantos homens que são tão bons rimando, mas são tão ruins pras suas mulheres. Jogo de cintura de se permitir ser autêntico em um mercado que tenta te enquadrar, te encaixar em um padrão e querer que você fale sobre drogas e putaria. Porque você pode falar sobre isso, mas eu gosto de lembrar que nesse álbum eu fiz do jeito que eu queria, falei das coisas que eu queria e como queria. Fui eu o tempo todo apesar de estar fazendo o jogo de cintura do game (Rap) e do mercado.

 

 

 

Escrito por:

Lenne Ferreira

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