COP 28, ONU e os truques para nos manter em coma

São 28 anos de COP e soluções pífias para combater a emergência climática a nível global. Mas será que a ideia não é essa?

Texto: Raquel Kariri

Se você está lendo esta coluna, então, o seu feed, assim como o meu, foi inundado de notícias sobre a COP 28. Pessoas indígenas, quilombolas, periféricas, mídias alternativas aterrissaram em Dubai para participar da Conferência, mas, nessa sopa interminável de siglas, o que realmente sabemos sobre o que, quem e quais os interesses movimentam as COPs?

Afinal, você também não acha estranho lobistas do agro, petróleo e mesmo indústria química estejam na COP? Porque representantes de empresas que poluem, desmatam, extraem petróleo são permitidos em uma cúpula de combate à emergência climática?

Bom, para tentar responder é preciso retornar até 1992, quando a famosa ECO 92 aconteceu no Rio de Janeiro. Delegações de 179 países desembarcaram no Estado  para esta que foi uma das principais conferências ambientais do planeta. Até aí sabemos, não é? Mas sabe o que não sabemos? O nome oficial da ECO 92 é Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Pausa aí, porque essa palavrinha no final – Desenvolvimento – é muito importante para nossa história. Na época, geral acreditava que o desenvolvimento sustentável seria a solução dos céus para os governos, afinal, ninguém precisaria desacelerar as economias, apenas explorar com responsabilidade. Olha, que maravilha! Os mesmos governos que ganham dinheiro promovendo guerras, vendendo armas, explorando petróleo, pessoas e natureza, seriam agora responsáveis por agir eticamente com o planeta.

Mais: durante a ECO 92 foi criada a Agenda 21, um instrumento que basicamente devolve para as comunidades a tarefa de pensar e solucionar os impactos que foram criados pelos governos e mega corporações. Faz sentido? Não. E é por isso que não funciona. 

E sabe também o que não sabemos? Uma das maiores patrocinadoras da Agenda 21 no Brasil é a Petrobras. Mas não pára aí. Ainda na ECO 92 foi criada a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, a UNFCCC. Não adiantou, pois, a UNFCCC é uma instância apenas consultiva e não executiva. 

A Agenda 21 foi criada na Eco 92, que aconteceu no Rio de Janeiro

Para solucionar o “problema” de criar uma instância que não possui autonomia, foi criada a Conferência das Partes da UNFCCC ou Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a famosa COP, que esse ano completa 28 edições. 

Vou repetir: são 28 anos em que centenas de países se reúnem e o desmatamento, a emissão de gases poluentes na atmosfera, a extração de minérios e petróleo, só aumentam. A verdade é que a COP, a ONU, não existem para solucionar a crise climática, mas para produzir a ilusão de que capitalismo e preservação da natureza podem conviver. 

Essa é a mesma ilusão que transformou as palavras “Desenvolvimento sustentável” da ECO-92, em “Transição energética”, na COP 28. Não há transição energética, apenas associação de matrizes de energia. O carvão não deu lugar a energia elétrica; o petróleo não está sendo substituído pela energia solar, muito pelo contrário. O Brasil acaba de anunciar o leilão para exploração de petróleo em  21 lotes na foz do Amazonas que será realizado após a COP 28.

O truque começa a perder o efeito no momento em que a mídia mais comprometida revela fatos estranhos como lobistas brasileiros do agro viajarem para Dubai como parte da delegação oficial do Brasil, o que concede acesso privilegiado às negociações diplomáticas.

Essa é a grande perversidade, o grande crime. Mas qual a surpresa? Essa é a mesma ONU que permite a guerra de limpeza étnica em Gaza, que até o momento que escrevo já assassinou mais de 15 mil palestinos, sendo um terço crianças. E o atual governo é o mesmo que bancou o projeto de integração do Rio São Francisco e a hidrelétrica de Belo Monte.

Então, se você achou esquisito o Brasil entrar para a OPEP+, o grupo que reúne os maiores produtores de petróleo, enquanto exibe a Ministra dos Povos Indígenas como troféu, ou que número de participantes credenciados ligados à indústria do petróleo é sete vezes maior do que o total de representantes indígenas na conferência, se acalme. É apenas o capital fazendo mais um truque e tocando o gado pro abatedouro que, no caso, somos nós. 

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

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