Conheça Inaldete Pinheiro, escritora e fundadora do Movimento Negro em Pernambuco

Inspirada pelos baobás, Inaldete fez da literatura um terreno para fecundar ideias de revolução e salvaguardar memórias pretas

 

Texto: Giovanna Carneiro
Imagem: Fran Silva

“Eu confesso que não sei explicar o porquê, mas acredito que seja por conta do documentário sobre mim que vai ser lançado, e eu fico muito feliz”. Com muita humildade e bom humor, a escritora, contadora de histórias, enfermeira e uma das fundadoras do Movimento Negro em Pernambuco, Inaldete Pinheiro, se diz lisonjeada por ter sido uma das homenageadas da IV Semana do Audiovisual Negro. 

Reconhecendo a importância das múltiplas linguagens e das diversas ações que a juventude negra tem encontrado para promover e manter aceso o debate antirracista na sociedade, a escritora negra e ícone do movimento feminista segue ativa na militância e, aos 78 anos tem sido cada vez mais referenciada pela geração contemporânea.

Nascida no Rio Grande do Norte, em 1946, Inaldete Pinheiro veio ao Recife nos anos de 1960 para estudar enfermagem e, na capital pernambucana, construiu uma carreira política e profissional voltada para o fortalecimento da cultura negra e combate ao racismo. Através dos seus escritos e das formações educacionais que realizou, Inaldete fomentou e segue fomentando as relações políticas e afetivas entre pessoas negras, que são filhos da diáspora africana. Em suas andanças encontrou aquele que seria o seu guardião espiritual e intelectual: o Baobá. “Eu vejo o Baobá como um guia que nós temos no mundo, uma ligação com a África”, conta a escritora. 

Seu último livro publicado em 2022 e intitulado Uma Aventura do Velho Baobá fala sobre a relação entre África e Brasil e traz um resgate ancestral com uma narrativa que valoriza as raízes culturais da diáspora negra. Além disso, Inaldete Pinheiro publicou as obras Cinco Cantigas para você contar; Pai Adão era Nagô; A Calunga e o Maracatu; Baobás de Ipojuca; Coleção Velhas Histórias, Novas Leituras; e Racismo e Anti-Racismo na Literatura Infanto-Juvenil. 

Em suas publicações, a escritora e ativista negra prioriza uma literatura direcionada ao público infanto-juvenil, mas garante que seus escritos podem e devem ser lidos por todos e todas, independente da idade. “Se todos tiverem acesso, eu acho que alguma coisa vai mexer, vai questionar, vai se identificar”, defende Inaldete Pinheiro. 

No documentário “Uma Irmã Mais Velha”, dirigido por Drica Mendes, a história de Inaldete Pinheiro se entrelaça com a história de formação do Movimento Negro em Pernambuco e a escritora narra os desafios e ganhos políticos e sociais que a população negra enfrenta. 

Sinopse do filme Uma Irmã Mais Velha

A história da população negra brasileira pode ser revisitada por muitos ângulos, sendo um deles o de uma mulher negra. Inaldete Pinheiro de Andrade esteve presente na formação do movimento negro em Pernambuco e tem sua trajetória entrelaçada com a história de luta e reexistência da população afro-pernambucana. A circularidade do tempo se revela por meio de suas memórias, um pertencimento “a uma África do lado de lá e uma África do lado de cá”, como também expressa afetos ancestrais grafados em cascas cinza-arroxeadas e avermelhadas do tronco de antigas memórias do seu velho irmão, o Baobá. Inaldete Pinheiro de Andrade apresenta, neste documentário, uma perspectiva sobre o movimento negro pernambucano, mas desvela sobretudo a memória sócio-histórica negra de “Uma Irmã Mais Velha”.

 

Frame do filme “Uma Irmã Mais Velha”. Crédito: Divulgação

 

Em entrevista ao Portal Afoitas, Inaldete Pinheiro falou sobre a sua relação com a militância negra em Pernambuco, o atual contexto dos movimentos sociais e sua carreira na literatura. 

O ponta pé inicial do Movimento Negro em Pernambuco 

Inaldete Pinheiro – Eu sou uma das fundadoras do Movimento Negro em Pernambuco, porque foi uma ideia que veio de três pessoas e na primeira reunião tinham várias pessoas presentes, e essa reunião aconteceu na sala da minha casa e eu falo isso não para me colocar como pioneira, o fato de ter ocorrido na minha casa era porque eu morava no Centro da cidade. Claro que têm pessoas que questionam isso, mas onde começou não faz muita diferença, o que importa é que houve um início, em 1979,  e que nós continuamos até hoje presentes na militância em lugares diferentes. 

Mudanças no contexto da militância ao longo dos anos

Inaldete Pinheiro – Na época em que o Movimento Negro surgiu nem a palavra negro era mencionada. Éramos, morena, moreno, moreno claro, moreno escuro, moreninha, a palavra negro era manchada, era muito pesada. Havia um discurso de moralidade sedimentado, os intelectuais ainda não trabalhavam com tanto afinco as questões de racionalização. Mas a partir da década de 80 quando começamos a discutir a raça com mais força e o lugar do negro na sociedade, começamos a ter uma fertilidade de pensamentos que questionavam essse “paraíso” democrático brasileiro, já não existia uma certeza nessa democracia racial e o termo morenidade foi caindo em desuso. E com o passar dos anos vimos o termo negro ser mais utilizado, vimos as pessoas terem mais orgulho de seus cabelos crespos naturais, a partir dos encontros que promovemos, dos projetos de leis, das discussões do racismo fomos modificando os comportamentos dos próprios negros. 

Por isso, eu digo que o racismo não diminuiu, mas a ostensividade talvez tenha ficado cada vez menor porque mais pessoas negras estão tomando consciência. 

Durante homenagem da IV edição da Semana do Audiovisual Negro (Foto: @julybfoto)

O Movimento Negro em Pernambuco atualmente 

Inaldete Pinheiro – Hoje em dia nós não temos um núcleo duro com um número determinado de pessoas que fazem parte do Movimento Negro em Pernambuco. As pessoas se envolveram em diversas outras causas sociais que perpassam pelo racismo e criaram outras referências também. Então, hoje nós temos movimento de mulheres, grupos de dança, grupos de teatro, grupos que trabalham na educação, não é mais uma coisa única. Cada um tem sua atividade focada em determinado setor e isso é muito bom porque a questão do antirracismo é algo que opera de diversas formas em diversos lugares. Eu, por exemplo, trabalho com literatura porque com a literatura eu consigo fazer educação de crianças e jovens negros. São ações que se multiplicam e se espalham sem necessariamente precisar se colocar como movimento negro, promover ações múltiplas em prol da população negra é uma questão muito ampla e isso é que é salutar o movimento negro.  

A relação com a escrita 

Inaldete Pinheiro – Eu sempre escrevi, sempre. Eu lembro na escola, na fase de vivência, e que hoje a gente chama de fundamental, eu já escrevia, fazia poemas, fazia cartas, escrever cartas é uma forma de comunicação. Então, sempre escrevi. Enfermagem foi uma profissão que eu estudei e fiz, mas a escrita não é uma profissão, é uma coisa que me acompanha.  Em um poema eu vejo uma forma de me comunicar com as pessoas. Não sou aquela escritora que escreve todos os dias, mas eu sempre tenho meu horário, meu tempo de escrita. Esse tempo de escrita pode sair um poema, pode sair um depoimento, pode sair uma carta, pode sair um texto, um texto literário variado, por isso é que eu me tornei escritora.

A escrita para mim é uma coisa de meia idade, praticamente, porque eu não nasci escrevendo, mas já tem 70 anos que eu escrevo. E isso foi muito importante, essa habilidade, porque com ela eu consigo tirar coisas do fundo do baú ou botar coisas no fundo do baú. É um caminho muito bom que eu encontro para me comunicar, para me dizer as coisas que não foram ditas, mas que eu devo dizer, as coisas que já foram ditas eu vou repetir, mas o que eu penso sobre o  amanhã, é uma forma de me encontrar em frente com o futuro.

A escolha de priorizar o público infanto-juvenil 

Para mim é o que faz mais sentido. A criança quando chega na escola pública é açoitada através de palavras e ações, então, ela é muito desprotegida. Mas se ela tem o mínimo de conhecimento, o mínimo de palavras positivas sobre ela, alguém para dizer que ela é bonita, para dizer que ela é especial, mesmo que seja através da literatura, ela vai ter mais segurança, ainda que precise de muito mais para se fortalecer. Por isso que meus livros são para todos os públicos, porque muitas mães não têm acesso a literatura por diversas razões, e os meus livros são para toda a família, não só para jovens e crianças. Se todos tiverem acesso, eu acho que alguma coisa vai mexer, vai questionar, vai se identificar ou não, mas vai mexer, e quando mexe é muito bom.

A relação com o Baobá 

Eu vejo o Baobá como um guia que nós temos no mundo, uma ligação com a África. A espécie africana de uma baobá é muito significativa para mim e aqui em Pernambuco nós encontramos muitos baobás.  De 53 países daqui, antes, somente 7 não tinham baobás e assim você vê a importância que eles têm no continente.

Quando eu viajei até Dakar [capital do Senegal], em 1982, eu saí um pouquinho da área urbana e cheguei na área mais popular, mais negra do Senegal e me impressionei porque lá tinha um bosque, uma área enorme, repleta de baobás. E eu já conhecia um baobá que tinha aqui perto de mim, que era de um velho que tinha um baobá. E eu ia lá, passava por ele, mas não sabia que era o baobá, nem sabia da referência africana que ele carregava. E a partir daí, quando eu voltei do Senegal, eu passei a referenciar o baobá nas minhas obras em homenagem aos meus antepassados que saíram da África. Para mim, ele representa uma das africanidades aqui do Brasil, em Pernambuco em especial, e eu peço até licença para falar dele. 

A existência do baobá em Pernambuco está se transformando, porque tem pessoas pesquisando, tem pessoas que vêm de fora pesquisar baobás aqui e eu sou uma entusiasta das pesquisas sobre ele 

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

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