Chefe de cozinha do restaurante afro Dùn Ajeun denuncia racismo praticado por clientes

Texto: Giovanna Carneiro | Imagem: Reprodução / Instagram

Na tarde do último domingo, 07 de abril, a chefe de cozinha e proprietária do restaurante Dùn Ajeun, Tayná Passos publicou nas redes sociais uma denúncia de racismo sofrida durante o horário de funcionamento de seu estabelecimento. O local, que tem como proposta ser um espaço afrocentrado e de valorização da cultura negra e africana, já passou por outras situações de violência racial. 

Em um vídeo publicado no Instagram, Tayná afirma que um casal de clientes se irritou com o atraso dos pratos. Como uma forma de se retratar, a chefe de cozinha foi conversar com os clientes e foi surpreendida com a atitude tomada pela mulher – identificada por Tayná como Marcela de Sena – que usou o termo racista “crioula” para se referir a ela e fez um sinal para que ela se calasse, em seguida afirmou “eu tenho cifrão”. Ainda de acordo com Tayná Passos, Marcela é professora e estava acompanhada de seu marido e ambos são funcionários de uma escola de referência do estado de Pernambuco. 

Na segunda-feira, 08 de abril, a chefe de cozinha registrou uma denúncia na plataforma “Recife Sem Racismo”, iniciativa da Prefeitura do Recife para registrar casos de racismo. “Alimentação e racismo ainda é uma pauta que as pessoas escondem, pois têm medo de se comprometer ou comprometer o restaurante, nomes, afins. Não dá para fechar os olhos. O debate é muito mais além do que só alimentação”, declarou Tayná Passos. 

“Devemos trazer o debate para dentro da cozinha, para o setor empreendedor. O racismo estrutural é ativo o tempo todo, e tem o recorte para alimentação para gente que está no papel de cozinhar ou a gente que é a auxiliar, cozinheira ou a tia da limpeza e não que isso não seja digno, mas a estrutura e as estatísticas estão servindo puro suco de racismo. A sociedade não está pronta para entender que a gente também pode ser dono, que a gente também pode ser líder, eles não aceitam a gente como potência”, concluiu a chefe de cozinha. 

Entre os comentários da postagem de denúncia publicada no perfil do restaurante, um chamou a atenção por se tratar de outra denúncia contra a agressora exposta. “Também fui vítima dessa pessoa. Sou professora e trabalhei na escola que ela também trabalhava. Sofri por diversas vezes abuso moral e ameaças por parte dessa pessoa. Ela me ameaçou dizendo que ia me esfolar. Na presença de diversos alunos”, comentou uma mulher, que chegou a afirmar que já prestou queixa contra Marcela de Sena, mas nada aconteceu.

Para Tayná, o caso só expõe o racismo estrutural que continua a descredibilizar pessoas pretas que ocupam lugares de poder. “Eu quero trazer a denúncia para o lugar de reflexão, sabe? Uma reflexão justa para que como a gente preta/pretos e pessoas radicalizadas pessoas originárias também que não são vistas. Nós somos tratados no dia a dia com muita violência em diversas vertentes da gastronomia”, pontua a cozinheira, que atua com uma equipe de maioria preta, entre elas sua mãe, Conceição, que pode ser vista no vídeo no momento em que a acusada se retira do restaurante ao lado de um amigo.

Confira a nota do restaurante Dùn Ajeun sobre o ocorrido:

REPÚDIO, REVOLTA E CASO DE RACISMO

Hoje recebemos uma cliente e seu parceiro que provocou violência física e moral, Racismo, violência contra mulher a nossa chef de cozinha Tayná Passos e seus funcionários/colaboradores. 

O que acontece em muitos estabelecimentos. Nem sempre o cliente tem razão. A gente de boa conduta estivemos presente para ajudar e compreendê-los. 

O setor gastronômico deve sempre se posicionar em relação ao que muitos clientes fazem, desmerecem as empresa, destratam os funcionários. 

Devemos quebrar o tabu de que clientes sempre têm razão. 

Não é a primeira vez que acontece, existem casos que levaram até a morte de funcionários na Paraíba. 

Infelizmente tivemos que fazer um pronunciamento nas redes sociais.  Pois é a segunda vez que acontece, a primeira um homem “policial” ameaçou duas funcionárias do Restaurante Dùn Ajeun dizendo que mulheres lésbicas deveriam morrer com a arma na mão. 

 

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

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