O que a seca na Amazônia e Caatinga revela sobre a colonialidade no Brasil

Na Amazônia e na Caatinga, a floresta e seus povos estão em permanente ataque. A cerca e a colonialidade produzem crises humanitárias e não fenômenos climáticos

Texto: Raquel Kariri

As cenas do Rio Solimões, transformado em dunas de areia, centenas de botos boiando mortos no Lago Tefé, barcos encalhados em lama onde antes era um mundo de água, situação de emergência em 59 dos 62 municípios do estado do Amazonas. A seca extrema deste ano é considerada a mais severa desde o início das medições, em 1902. 

A plataforma World Air Quality Index, que monitora poluentes no ar em diferentes países, registrou, no dia 11 de outubro, um nível alarmante de envenenamento, tornando Manaus, capital do Amazonas, a 3ª pior cidade do mundo para respirar. A causa foram os mais de três mil focos de incêndio em todo o estado, principalmente na cidade de Autazes, localizada na região metropolitana de Manaus. A cidade, que se consolidou como principal produtora de leite, viu a floresta ser substituída pelo pasto que, com a seca extrema, se torna agente de disseminação do fogo. 

Para se ter ideia, a fumaça era tanta que não era possível visualizar o final da ponte Rio Negro que tem 3,5km. Hospitais lotados, idosos e crianças com crise respiratória, dores de cabeça, vômito. Emergência climática e humanitária generalizadas.

Não faltam explicações para a seca extrema na Amazônia, entre elas, o El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico, maior oceano do planeta. No Brasil, ele dificulta o avanço de frentes frias no Norte e Nordeste, o ar se torna mais seco e passa a circular para baixo, o que dificulta a formação de chuva e está associado a períodos de secas. No Nordeste, passou a ser apontado como o agente catalisador das secas.

Mas o que isso revela sobre as secas há muito vivenciadas na Caatinga? 

Crédito: Portal WSCOM

Em se tratando de seca, nós, povos da Caatinga, somos especialistas. Como todos os seres desse território nos adaptamos e geramos conhecimentos apropriados para nos relacionarmos com o clima semiárido. Secas e estiagens não são novidade para mim, nem para o sanhaço, nem para o xique-xique. Os umbuzeiros sabem muito bem como atravessar uma seca, não é problema para eles. 

A Caatinga nos ensina a lidar com nosso clima, isso é repassado milenarmente. Então, onde está o problema? Se os fenômenos são sazonais e conhecidos, por que há tanta crise humanitária? 

É preciso separar os fenômenos naturais de emergência climática e humanitária. Isso é fundamental. Os fenômenos naturais são energias orgânicas do corpo da Terra e se manifestam de forma sazonal, a exemplo do próprio El Niño que acontece de maneira irregular e periódica. Ou seja, fenômenos climáticos não são tragédias, são a manifestação da bela impermanência que é a Terra. Quando falamos em Seca, não estamos nos referindo à mutabilidade das energias da Terra, mas sim, a consequências a níveis catastróficos: fome, morte, desterritorialização. Isso não é produzido pelo clima, isso é produzido pelo Colonialismo. Compreender a diferença entre fenômenos climáticos e emergência humanitária nos retira da passividade de um destino inalterável.

Milenarmente os povos nativos habitantes da Caatinga convivem com o clima semiárido e desenvolvem estratégias de movência e cultivos apropriados para o território. O deslocamento pelos territórios nos períodos mais exigentes era uma estratégia de movência que foi interrompida com o roubo das terras, a criação da propriedade privada e chegada do gado ainda no período colonial. 

No semiárido, a cerca e não a seca, criou crises humanitárias. O roubo das terras significou o roubo das melhores terras. A introdução do gado modificou os fluxos das águas e provocou conflitos que resultaram em genocídio indígena. O plantio e cultivos adaptado às condições do semiárido foram paulatinamente substituídos pela monocultura introduzida pelos invasores e desmatamento das florestas nativas. É assim que se produz o flagelado, a desertificação. É assim que a colonialidade transforma Seca em crise humanitária.

Entre 1979 e 1984, foi registrada a mais prolongada seca da história do Nordeste. Segundo dados da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), 3,5 milhões de pessoas morreram de fome, a maioria crianças. Os jornais nos informam que a Seca matou todas elas. Na verdade, o colonialismo, pai do racismo e da patologização da Caatinga e seus povos, é o grande responsável pelo morticínio.

O “flagelo da seca” nada mais é do que a máquina de guerra colonial em funcionamento. Flagelados, em contexto da Caatinga, são indígenas e quilombolas que sofreram roubo de terras, desterritorialização e interrupção de seus modos de vida. Sabemos muito bem como manejar as exigências climáticas e atravessá-las, temos os conhecimentos para isso, é só deixar a nós e nossos biomas em paz. 

Infelizmente, conhecemos bem a crise humanitária vivenciada na Amazônia. Água é o que não falta nesse bioma, entretanto, os mega projetos que mudam cursos de rios inteiros, a precária rede de abastecimento, saneamento básico e poluição dos rios produziram essa situação de insegurança hídrica até mesmo para ribeirinhos indígenas que atualmente necessitam de abastecimento de água em seus territórios. Pessoas que vivem à beira dos rios, não possuem água para beber.

Nenhum fenômeno climático produz catástrofes recorrentes nessa magnitude, mas o colonialismo, essa máquina  devoradora de gente, bichos, terras e plantas. A seca não nos assusta, a colonialidade, sim.  

 

 

 

 

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Afoitas Jornalismo

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