“As minhas costas também doem”: uma crítica sobre o filme Rio Doce

Texto: Giovanna Carneiro | Fotos: Divulgação 

“A dor do enquadramento dessas imagens [imagens de controle] nas experiências de homens pretos não pode ser mensurada, mas elas constantemente nos atravessam, costurando nossos corpos e roubando nossa identidade”. A frase do professor e pesquisador, Milton Ribeiro, dimensiona o peso que os homens negros carregam por viverem em um país colonial e racista que os atribuiu representações e estereótipos negativos e desumanizantes. 

O racismo pesa, literalmente, quando pensamos no cotidiano das pessoas negras. A violência diária, a sensação constante de ser insuficiente, o medo de perder o pouco que se tem, o cotidiano exaustivo que a maioria da população negra enfrenta por ocupar subempregos. Física e psicologicamente, tudo pesa, cansa, dói. E é nesse contexto esgotante que vive o personagem Tiago, jovem negro do bairro de Rio Doce, em Olinda, interpretado pelo multiartista pernambucano Ellan Barreto, mais conhecido como Okado do Canal, protagonista do filme que recebeu o mesmo nome do território: “Rio Doce”

Morador de periferia, filho único de uma mãe solo e pai de uma menina negra, Tiago é um personagem introspectivo em grande parte da trama, mas isso não dificulta que o público crie empatia pela sua história. Afinal, quantos jovens negros enrijeceram suas posturas e moldaram suas subjetividades diante de uma vida permeada pelas diversas violências simbólicas e estatais que enfrentaram ao longo de sua existência? Não é à toa que Tiago sente com uma constante dor nas costas com quem convive com o peso que está posto sobre o seu corpo.

O filme Rio Doce estreia no dia 20 de abril | Crédito: Divulgação

Em Rio Doce, o cotidiano de Tiago é retratado de uma forma autêntica e real, com pouca ou nenhuma romantização. As relações de afeto entre os moradores do bairro e a família do protagonista, – relações afrocentradas que ganham significação no apoio mútuo -, dão o tom ao enredo do filme e são fundamentais para a desenvoltura do drama que ganha força com um segredo revelado. 

Aos 28 anos, o jovem negro, que assim como boa parte da população brasileira, foi registrado e criado pela mãe solo, descobre quem é o seu pai e conhece uma “nova família”. A partir daí, uma série de acontecimentos reforçam as diferenças sociais, raciais e econômicas centradas na experiência vivida por Tiago. Dois momentos marcantes da trama sintetizam bem essas diferenças: a conversa de Tiago com a mãe, uma mulher negra e periférica, e a conversa com a meia irmã, mulher branca de classe média. Em ambos os momentos o protagonista revela sua fragilidade e expõe suas dores. 

O racismo é retratado de uma maneira naturalizada como acontece na vida real, mas de nenhuma forma naturalizada. É possível perceber nos olhares, nas falas, nos cenários e nos percursos traçados pelo protagonista, as contradições e violências enfrentadas pelo jovem negro, bem como o adoecimento mental causado pela árdua rotina.

A naturalidade com que os personagens se encaixam no desenvolvimento da história e a atuação do elenco é admirável. O ponto alto está na interpretação do multiartista pernambucano Ellan Barreto, que dá vida a Tiago de maneira muito íntima e afetiva. A impressão que fica é que Rio Doce,  ficção do jornalista e diretor Fellipe Fernandes, é baseada em uma história real, história essa que condiz com a realidade de milhares de brasileiros e brasileiras. 

Frame do filme Rio Doce |  Crédito: Divulgação

Apesar de ser centrada na história de um homem negro, o filme também evidencia o protagonismo das mulheres negras que são fundamentais na vida de Tiago, o que me fez relembrar a interseccionalidade defendida por Carla Akotirene ao afirmar que “homens negros não são algozes das mulheres negras, nem protegidos pela concepção mulherista, existe sim, a compreensão do racismo ser a ideologia central da subalternidade humana sendo o credor de práticas coloniais”. 

A cena final, em que Tiago carrega sua filha – uma menina negra – nos braços, mesmo sentindo dores nas costas, e promete levá-la à praia para curtir um momento de lazer é um desfecho que traz acalanto e ao mesmo tempo deixa aberta a fresta para fabularmos sobre as experiências de vida das pessoas negras. Ou simplesmente nos reconhecer em Tiago e sua família. 

As minhas costas também doem, assim como as de Tiago. Mas, ao invés de diminuir o peso do fardo que carregamos, estamos sempre dispostos a colocar mais responsabilidades em nosso colo, afinal, se automedicar parece ser mais fácil do que pedir ajuda. E demonstrar fragilidade ainda é um privilégio para a grande maioria de nós, pessoas negras. 

Escrito por:

Afoitas Jornalismo

afoitas.contato@gmail.com

 @afoitas